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Menina Curiosa

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Eu sou a Velha Menina. O meu cabelo é uma teia de aranha com gotas de orvalho...

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Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

Depoimento de Rita Lee

 

Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor.
Vinham da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças.
Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais virgem e os irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da famlia lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra.
Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi janela, nunca mais dançou nos bailes e acabou fugindo para o Piau, ninguém sabe como, nem com quem.

Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa para se encontrar com o namorado.
Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O  laudo médico registrou vestgios himenais dilacerados, e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor, para se esquecer do mundo. Realmente se esqueceu, porque acabou morrendo tuberculosa.

Imagem da Internet



Estes episódios marcaram para sempre a minha consciência e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das mulheres?
Poder que, ontem, era para mutilar, amordaçar, silenciar. E que, hoje, é para manipular, moldar, escravizar aos estereótipos.

Todos vemos, na televisão, mulheres torturadas por seguidas cirurgias plásticas. Transformaram seus seios em alegorias ridculas para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais, garantindo bom sucesso nas passarelas do samba.
Substituram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem à  moda do momento e ficarem irresistíveis diante dos homens.

Imagem da Internet


E, com isso, Barbies de fancaria, provocaram em muitas outras mulheres as baixinhas, as gordas, as de óculos - um sentimento de perda de auto-estima.

Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes universitários (56%) é composto de raparigas.

Em que mulheres se afirmam na magistratura, na pesquisa científica, na política, no jornalismo. E, no momento em que as pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que é preciso feminilizar o mundo e torná-lo mais distante da barbárie mercantilista e mais próximo do humanismo.
Imagem da Internet

Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade. Até porque elas são desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pênis, sem o poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas e punhais.
Ninguém diz, de uma mulher, que ela é de espadas. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência.
As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência.
É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz.
E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher.
Respeito  pelas suas pernas que têm varizes porque carregam latas d'água e trouxas de roupa.
Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos.
Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o passado nas costas.

São as mulheres que irão impor um adeus  às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e a doçura de seus corações.

"Nem toda feiticeira é corcunda. Nem toda brasileira é só bunda."

Rita Lee

publicado por A Velha Menina às 23:12

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4 comentários:
De Pedro de Sousa a 1 de Dezembro de 2007 às 12:20
Ola

Verdade verdadinha, nao concordo com uma série de coisas

Primeiro não concordo com esse poder absoluto dos homens sobre as mulheres... vivemos numa sociedade em que a mulher ja demonstrou que tem poder e que o utiliza quando precisa de o fazer

Segundo, muitas mulheres são universitárias, ou tem um emprego razoávelmente bom... logo nem do ponto de vista intelectual nem do ponto de vista social estão assim TÃO dependentes dos homens

Terceiro, se se transformam fisicamente é porque são burras. Vejamos... ninguem as obriga a por silicone, ou a pintar o cabelo... elas fazem porque o querem, ou porque querem agradar a algum homem, porque se sentem inferiorizadas... nota! elas sentem-se... Ah! respondes tu, são os homens que a fazem sentir... Mentira... se eu nao gostar de ti como tu és, é pura e simplesmente porque nao gosto de ti.

A falta de auto estima de cada um deve ser ultrapassava individualmente, de dentro para fora, e não o inverso

As mulheres nao sao aguerridas? ainda bem, ou isto andava tudo à pancada (tambem pouco falta)

Beijinhos


De A Velha Menina a 10 de Dezembro de 2007 às 03:10
Olá Pedro,
Este texto da Rita Lee é um grito de revolta contra situações extremas.
Mas não chames burras às "mulheres de silicone". Eu também as achava ocas, fúteis e tonticas...até perceber o que a solidão emocional pode fazer às pessoas.
Algumas serão realmente desprovidas de "células pensantes", mas a maioria delas faz uma plástica para se sentir melhor...no fundo é uma espécie de grito "Já corrigi as imperfeições, por favor gostem de mim"
E olha, penso que é muito triste.As mulheres podem ser universitárias, quadros de empresa, etc. Mas mesmo as mulheres mais inteligentes escolhem o parceiro errado, o tal que nem repara na companheira, mas depois colecciona BD pornográfica e baba-se sempre que aparecem na Tv os apêndices silicónicos da Pamela Anderson.
E não esquecer a pressão social. Sabes que já me aconteceu entrar em todas as lojas de uma determinada rua comercial...e não encontrei um fato que me servisse? Tudo parecia feito à medida de adolescentes anorécticas, quando pedia o nº acima, as meninas "posso ajudar" respondiam-me que "tão grande não fazemos"...
Ora essa! Eu meço 1,64 e peso à volta de 59 kg, grande aonde??!
Ainda tenho no meu roupeiro umas gloriosas jeans do meu tempo de estudante, nº 36 e que me servem perfeitamente! Agora tenho de pedir o 40/42 ... e são exactamente do mesmo tamanho das velhinhas 36 ! E ninguém vai preso?
Agora imagina uma mulher carente de afecto, só ou com parceiros indiferentes...a uma dada altura pensa que o defeito é dela, que tem de ter a imagem xpto para ter sucesso emocional...e lá faz o sacrifício estético da moda. Possivelmente o companheiro até a encoraja (até vir a conta da cirurgia...).
Vivemos numa sociedade que, penso eu, está esvaziada de valores. Eu quero que um homem goste de mim e me aprecie pelo que sou como Pessoa. Devo ser naif, mas o "embrulho" deve ser secundário, os sentimentos e a ética é que devem prevalecer.
Mas sejamos honestos, muitas vezes é a "embalagem" que atrai ou repele nesta sociedade consumista e oca. E isto pode afectar até a mulher mais independente porque no fundo, todas procuramos amor (às vezes do modo errado).

Beijos

Ps: Eu resolvi o problema dos tamanhos: não voltei a nenhuma loja daquela rua e procurei outras lojas mais realistas. Assunto "trapos-que-me-sirvam" arrumado.







De Pedro de Sousa a 10 de Dezembro de 2007 às 09:14
Ola

Desculpa... em parte excedi-me, em parte nao me expliquei bem

O que queria dizer é q ue uma mulher pode perfeitamente sujeitar-se a plástica, mas unicamente por motivos de saúde (e aí entra no ambito da cirurgia reconstrutiva) ou por motivos pessoais, alheios a factores externos...

No fundo, nunca deve a mulher rebaixar-se a fazer uma plastica para agradar a alguem...

Beijinhos


De A Velha Menina a 17 de Dezembro de 2007 às 00:54
Olá Pedro,
Desculpa tantos dias sem resposta.
Não te excedeste, disseste frontalmente o que pensavas (o que é uma qualidade rara).
Este é um tema sensível que conduz por vezes a opiniões mais extremadas. Mas tem de haver uma razão forte para que as mulheres paguem para ser "retalhadas" quando não está em causa um defeito congénito ou um acidente, como tu dizes.
A sociedade exclui os feios e os idosos, basta ver os anúncios: cabelo grisalho só aparece em director de banco como sinónimo de experiência e credibilidade...nunca é mostrado como a evolução normal de todos nós, pelo contrário, só falam de tintas para o esconder.
E temos mais milhares de exemplos - já reparaste que agora está na moda uma alva e perfeita dentadura...quando já houve tanta paixoneta por um dentinho torto?

Bjs.





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