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Menina Curiosa

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Eu sou a Velha Menina. O meu cabelo é uma teia de aranha com gotas de orvalho...

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Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

O dia do teu divórcio

 

Vi-te logo à entrada.

Imponente, bem vestido como quem vai a um grande evento.

 

E era.

Era o dia do teu divórcio.

O teu divórcio dela, ela que foi em tempos o centro do teu mundo...

 

Estavas de fato novo, acabadinho de estrear, camisa impecável, botões de punho reluzentes.

Essa barbicha rala que em tempos, há muitos muitos anos, me fazia suspirar...

Estavas lindo, homem do meu passado.

 

 

Mas o que vestias e ostentavas com mais empenho era o teu sorriso.

Um sorriso de triunfo.

 

 

Triunfo?

Admitir que se falhou uma relação é um triunfo?

Desfazer um lar é um triunfo?

Deixar os filhos para trás engrandece um homem?

 

Estavas assim tão envolvido com ela que, para ti, foi uma vitória conseguires desfazer o nó que os unia?

E que vitória há num divórcio?

 

Ela estava nervosa.

Não como uma noiva.

Nervosa de desespero.

Cumprimentou-me de olhos no chão.

Pareceu-me ouvir música. Os primeiros acordes : "Yesterday, all my troubles seem so far away...", a mesma música que a malícia da minha ex-sogra fez com que o órgão ecoasse, potente e retumbante pela basílica onde me casei, logo após a marcha nupcial e perante uns convidados estupefactos...

Enxotei o baixinho fantasma amarelo de ruindade e tentei sorrir ao casal que estava prestes a deixar de ser.

 

Ela tremia.

Via-se bem que ela lutava para continuar inteira, para não se desfazer ali, que desfeito já o seu mundo estava.

 

 

 

Nesta hora tive um sentimento de solidariedade por ela.

Que também ela amou e por amar estava ferida.

 

Que esperança tinha ainda aquela infeliz num homem que estreia um fato para ir à Conservatória?

Num homem que sorria de triunfo ... no dia do seu divórcio?

 

 

E tu, figura impante de vaidade?

Tu cumprimentaste-me efusivamente.

"Tu por aqui? Não me digas que também..."

 

Não, eu não. Eu já há muito que resolvi o irremediável.

 

"Então também estás livre! "

 

Ela estremeceu.

Pobrezita, isto não se faz!  Será que os homens têm pedras no lugar do coração?

 

"Olha, tens aqui o meu número de telemóvel. Um destes dias vamos jantar os dois como nos velhos tempos. Mas tu estás óptima, parece que os anos não passam por ti, mas também, sempre foste interessante...blá, blá, blá..."

 

Deixei de te ouvir.

Apenas fixei o teu sorriso (triunfante) e o mundo abalado daquela que ia deixar de ser a tua mulher dali a minutos...

A minha irmã de espécie, sofrida por amor de um homem, ia ficando cada vez mais pequenina...

Sozinha e encolhida. E continuava a tremer...

 

E a música ao fundo, e o fantasma da minha ex-sogra a rir baixinho.

Não sei de que ri ela. O meu sogro ia-se divorciar quando um ataque cardíaco fulminante resolveu o que ele estava a resolver, deixando a minha em tudo pequenina sogrinha com casas, carros e cheia de dinheiro.

Mas ela, bem viva, continua a perseguir-me, cometi o sacrilégio de lhe "tirar" o primogénito, aturar-lhe as manias e birras enquanto ela sempre lamentava (à minha frente) o mau casamento do filhinho.

Já acabou, está tudo tratado e assinado, nada mais temos, nunca mais o devo ver e ainda me persegues mulher ciumenta?

Sai criatura malévola. Não te enxotei já?

Tenho de chamar S. Jorge? Um exorcista?

Volta para o sítio tenebroso de onde vieste!

Santo nome de Jesus, é preciso ter pachorra!

 

 

 

E tu, vaidoso, tu continuavas a tentar falar comigo:

"Agora vou abrir uma empresa com umas pessoas, uma delas é unha-com-carne com o Ministro xpto, sabes como é, eu tenho influências políticas de peso, a minha carreira..."

 

Despedi-me com uma pressa de uma inventada urgência.

Agarrei o cartão que me estendias e saí para a rua, aliviada.

 

Porque em tempos fui eu quem tremeu por ti, fui eu quem te quis.

Ela apareceu.

E com ela e para ela foram o teu sorriso que na altura era meigo e essa barba de três dias que me provocava arrepios no mais fundo do meu ser...

 

Depois de ti veio o homem com quem casei. Ele já não existe, mas o fantasma amarelinho da mãe dele não me larga.

Casei mal e paguei por isso.

Como agora aquela infeliz que chora para dentro está a pagar.

Feridas rasgadas pelas malhas de aço da tua insensibilidade cruel.

 

O  sol acompanhou-me.

 

Então veio-me a vergonha.

Vergonha, sim!

Deitei o teu cartão no primeiro caixote de lixo (ecológico) que encontrei.

 

Como posso ter amado um homem que sorri de triunfo e estreia um fato no dia do seu divórcio?

 

 

 

 

Soube mais tarde que, lá dentro,  ela recusou sentar-se ao lado dele e nunca mais lhe falou.

Eu também fiquei sem vontade nenhuma de o fazer!

 

 

  

 
 
 
 
 
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música: Yesterday - Beatles

publicado por A Velha Menina às 04:51

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4 comentários:
De Lua de Sol a 25 de Setembro de 2007 às 09:40
Há sogras tão estuporadas - assim como outras pessoas -, que interferem tanto na nossa vida, que mesmo que as afastemos parecem teimar em continuar... Viram trauma!
Quanto à pobre senhora que se ia divorciar... Não devia sentir-se frágil nem pequenina, ela é que devia ter comprado um vestido novo para a ocasião, pois foi uma sorte livrar-se definitivamente de um homem que demonstra tamanha felicidade por ver pelas costas! Não lhe poderia trazer felicidade alguma. E normalmente as pessoas divorciam-se depois de já se terem separado, e com um marido daqueles, já devia ter chegado ao tribunal com a cabeça erguida!A barba rala não compensa a insensibilidade e o narcisismo...
Bjs


De A Velha Menina a 26 de Setembro de 2007 às 09:36
Pois é, e embora eu também seja mulher, embora também um dia venha a ser sogra (espero eu ), embora ame os meus filhos com um Amor que transcende a própria Vida...não consigo entender estas mulheres. Espero nunca ser assim.
Bjs.


De Alcaide a 26 de Setembro de 2007 às 10:32
Amarras

Que barca tem um rumo com amarras?
Os ventos não te levam se nãosopram,
nem há cais que te acolhe se te encerram
velhas cordas que prendem onde agarras.

Que as ondas te libertem algazarras.
Que a barca, seja a barca...já passaram
mil noites com fantasmas que acenderam,
ao largo, teu farol das outras barras.

E ruma com bom vento de verdade,
sulcando o teu viver em acalmia,
deixando para trás a tempestade

Que a barca dessa noite faça dia
e rume tão depressa à liberdade,
como é certo o horizonte de harmonia!

Alcaide Agosto 2007

Pareceu-me a propósito. Sempre existem decepções na vida... As de amor são complexas , exista ou não um casamento a sustentá-lo. Mas a vida está a correr e depressa... e parece só haver esta, pelo menos para cada um . e que se guarde num cantinho o que é de bom, e tentemos encontrar outros pedaços para completar o "peso mínimo"!



De A Velha Menina a 26 de Setembro de 2007 às 17:27
Olá Alcaide
Tens sempre uns poemas deliciosos e, tal como Shakespeare, apropriados a cada situação da vida. Vou guardar este no meu portfolio.
Muito e muito obrigada.


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