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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

Ópera Das Märchen de Emmanuel Nunes encheu (e esvaziou) teatros por todo o país

Não posso comentar, porque nessa noite tinha bilhetes para a esgotada peça "A Bíblia - Toda a Palavra de Deus (Sintetizada)" encenada pelo impagável João Garcês e corria o risco de ser mais trucidada pela minha adolescente descendência, caso os fizesse mudar de programa.
"Oh Mãe, em vez de irmos rir queres ir ver isso em alemão? Deixa lá que nós depois compramos o DVD".
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Imagem da Internet

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A lógica imediatista da juventude deixou-me sem argumentos - e confesso que tinha algum receio - uma obra encomendada, com base num libreto de Goette e música com variações temáticas entre o século XVIII e os anos 50, tanto poderia ser um retumbante sucesso, como um estrondoso flop - e aí nem com um transplante de alma eu escapava da fúria teenager, em pleno Bairro Alto numa sexta-feira à noite...
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Aguardei expectante o resultado.
Não tenho palavras.
De tudo o que li e ouvi, estes artigos do jornal Público são dos menos demolidores...
Infelizmente parece-me que há muita politiquice no assunto e pouca análise musical.
Mas posso estar enganada...
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Ao ler isto, os adolescentes da família (aliviados por terem escapado à estreia) saíram-se com o seguinte comentário : "Por dinheiro faz-se tudo."
Demolidor.
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Ópera Das Märchen de Emmanuel Nunes encheu (e esvaziou) teatros por todo o país
Sérgio C. Andrade

Não há ainda números oficiais, e, quando eles surgirem, terão diferentes somas e outras tantas leituras. A estreia, na sexta-feira, da ópera de Emmanuel Nunes Das Märchen (O Conto), a partir do texto homónimo de Goethe, teve transmissão simultânea para 14 palcos distribuídos pelo país, a partir do Teatro Nacional São Carlos (TNSC), em Lisboa, numa iniciativa inédita, patrocinada pela PT.
Reportagens realizadas pela Lusa e por jornais como o Diário de Notícias e Jornal de Notícias na estreia deram conta do esvaziamento precoce de várias plateias onde a ópera estava a chegar via satélite. Por exemplo, em Beja, no Teatro Pax Júlia, das 83 pessoas que começaram a ver o espectáculo, só metade chegou ao fim; e no Teatro Bernardino Ribeiro, em Estremoz, só resistiram cinco dos 40 espectadores iniciais. Em Lisboa, o crítico do PÚBLICO registou que metade da assistência abandonou o São Carlos ao intervalo de um espectáculo que duraria mais de quatro horas. Ou seja, indicadores de uma recepção (ou de uma decepção?) que não estaria nas contas dos responsáveis. Terá valido a pena a aposta?
Mário Vieira de Carvalho, secretário de Estado da Cultura e musicólogo, diz claramente que sim, e "felicita" a direcção do TNSC. Tendo assistido a parte do espectáculo no Teatro Lethes, em Faro - "por razões de agenda, não pude ficar até ao fim, mas no início estavam 70 pessoas na sala", diz -, o governante realça que "Emmanuel Nunes é uma das grandes referências da cultura portuguesa" e autor de uma obra com grande repercussão internacional. Sobre o abandono do público em muitas salas, diz que "sempre se passou isso com as obras novas, que motivam sempre sentimentos contraditórios". Mas realça a importância de fazer as pessoas "confrontar-se com o novo".
Um disparate
O musicólogo Rui Vieira Nery - que só hoje irá ver Das Märchen e por isso não pode referir-se à obra em si - considera que esta "não foi uma boa escolha" para uma divulgação mais alargada da ópera e da música contemporânea. "Penso até que foi um disparate e um mau serviço prestado à música" expor uma obra de Emmanuel Nunes a ouvintes "sem qualquer preparação prévia".
Mário Viera de Carvalho riposta: "Nós devemos dar oportunidade ao mais largo público possível de ouvir o que de melhor existe na cultura portuguesa". E acrescenta que cabe, depois, às pessoas fazer o seu juízo. "É nesse momento que há crescimento cultural de um país", diz. Mas Vieira Nery lembra que esse juízo dificilmente sobrevive à "violência" de ouvir uma obra com esta linguagem e complexidade.
António Jorge Pacheco, programador do Remix Ensemble, envolvido na produção de Das Märchen, considera que uma operação destas "não se pode medir por números, nem pela quantidade de pessoas que abandonaram as salas". Diz que ela é "como plantar uma semente, cujo resultado não se vê logo a seguir".
Mas quem tem também uma opinião crítica sobre a estratégia adoptada para a democratização da música é António Pinho Vargas. Este compositor chama a atenção para o contexto em que toda a operação foi montada, a justificar a sua avaliação. "É preciso recordar as circunstâncias da saída de Paolo Pinamonti do São Carlos, e o papel que Emmanuel Nunes teve no processo", diz Vargas, notando também que o compositor de Das Märchen usufruiu de "condições de excepção", tanto no ano passado, em que a Casa da Música (onde foi compositor residente) e a Gulbenkian, co-produtores da ópera, fizeram um trabalho de preparação para a estreia do fim-de-semana, como agora com a organização, em Lisboa, de um grande colóquio dedicado a Nunes.
Vargas acrescenta que a estética de Emmanuel Nunes "remonta à criação das décadas de 1950/60, quando a música contemporânea vivia o período de maior crise na sua relação com o público". Apostar numa gigantesca operação de divulgação da ópera com uma obra com estas marcas estéticas "é como transmitir em directo um jogo de xadrez", diz o compositor portuense, simbolizando as suas dúvidas quanto à eficácia da operação.

 

 

 

A crítica de Pedro Boléo no P2
Metade do público abandonou a ópera de Emmanuel Nunes na estreia no Teatro de São Carlos 
27.01.2008 - 11h52 Pedro Boléo
O Teatro de São Carlos estava cheio às 20h, no início da estreia mundial da ópera de Emmanuel Nunes. Ao intervalo, duas horas depois, as desistências eram muitas. Cerca de metade do público tinha abandonado a sala. A primeira ópera do compositor português é uma co-produção do São Carlos, da Gulbenkian, da Casa da Música e do IRCAM (instituto francês dedicado à investigação e à criação de música contemporânea).

As expectativas à volta desta produção eram muitas. Encomenda ainda da direcção de Paolo Pinamonti, Das Märchen (O Conto) passou por algumas peripécias até ao dia da estreia, incluindo vários adiamentos e algumas discussões que vieram a público entre o compositor e o director do São Carlos. Lembrar este contexto e sobretudo o grande investimento institucional nesta ópera é importante para pensar o objecto estético apresentado na sexta-feira. Até porque Das Märchen pode ser vista, entre outras coisas, como uma reflexão (artística) sobre a arte e a sua autonomia. No prólogo que dá início ao espectáculo, fala-se da faculdade da "imaginação", aquela sem a qual a arte não existe. "Ela não se prende a nenhum objecto", diz o libreto. "Ela não faz quaisquer planos, não escolhe nenhum caminho", ouve-se depois. Quem escreveu estas palavras foi Goethe (1749-1832), o autor do conto original em que se baseia a ópera Das Märchen, e uma das figuras centrais do primeiro romantismo alemão. Goethe e Schiller desenharam, desde fins do século XVIII, os contornos da ideia romântica de uma arte autónoma e definiram, nesse processo, a posição do artista, as condições do "livre jogo da imaginação" e as qualidades do génio criador.

Mas já não estamos no fim do século XVIII. E é natural que esta enigmática (para não dizer esotérica) ópera de Emmanuel Nunes cause alguma perplexidade. A afirmação da autonomia absoluta do artista e da sua arte independente (no modelo a que alguns chamaram "arte pela arte") em tudo é contradita pela própria natureza da produção operática, e ainda mais neste caso de Das Märchen, onde há música, dança, teatro, projecção vídeo, electrónica ao vivo, cenografia, luz, etc. Embora o nome de autor tenha o peso que se sabe, o criador de Das Märchen não é só Emmanuel Nunes. E a arte na principal sala de ópera portuguesa não está sujeita apenas ao "livre jogo da imaginação dos artistas". Depende do Estado, de patrocinadores que mexem em muito dinheiro (por exemplo o BCP) e de várias instituições culturais. Dirão que estou a fugir ao assunto. Não: o assunto também é este.

O problema de Das Märchen não é ser muito grande e ter música difícil para os ouvidos. O problema não é o número de horas que dura. O que há é talvez um excesso de elementos simbólicos, de coisas para olhar, para ouvir, para ler. Tudo na língua germânica, talvez para estarmos mais perto do idealismo alemão, mas transfigurado por uma encenação pós-moderna, em que o excesso simbólico chega a ser disparatado. Karoline Gruber dispara mesmo em todas as direcções, e faz uma encenação infinita nas suas múltiplas relações internas, tal como o intrincado texto de Goethe, jogando com figuras míticas, magias, círculos, terra, fogo, ouro (impossível não nos lembrarmos de Wagner). Brincadeira ou megalomania?

O problema da encenação é que não sabe bem o que fazer daquilo tudo. Os corpos estão sempre em movimento (uma coreografia neo-conservadora anda ali pelo meio um pouco à nora), as personagens duplicam-se, as projecções vídeo criam imagens sobre imagens sobre imagens. O resultado mais uma vez é contraditório: tudo se mexe mas há uma sensação de que tudo é estático. Tudo é movimento permanente (como num rio), mas (quase) nada nos prende. Na música, apesar de muito bem interpretada pelo Remix com elementos da Orquestra Sinfónica Portuguesa e alguns bons cantores, acontece o mesmo: há milhões de acontecimentos, de timbres e de jogos rítmicos, mas tudo parece ficar no mesmo sítio e tudo parece equivaler-se. É uma música palavrosa, que fala sem parar (bavarder, em francês, é a melhor palavra para a descrever). Até aí tudo bem. Mas Das Märchen, de tanto querer ser a arte pura que não pode ser, entra numa contradição insolúvel, e opta por fechar-se ao mundo. A encenação tenta dar, na parte final, um salto para outro lugar, depois de uma espécie de "catástrofe". Mas já era demasiado tarde. E fica só isso - a ideia de que não há nada a fazer. É assim e pronto.
E quem vê? E quem ouve? Também não pode pensar a ópera a que assiste, porque esta arte se diz impensável. O espectador não pode pegar em nada daquilo que vê e ouve, porque esta arte é arte pura - e querer dar-lhe utilidade é corrompê-la. Podemos então apenas pasmar?

O que fica de Das Märchen é uma perplexidade. Ela leva ao extremo as contradições desta arte que se quer pura (e que afinal é tão impura) e os problemas da função da ópera nos nossos tempos, enquanto representação social do poder.

Das Marchen
De Emmanuel Nunes
Orquestra Sinfónica Portuguesa
Remix Ensemble
Coro do Teatro de São Carlos
Peter Rundel, direcção musical
Karoline Gruber, encenação

 


 

 

 

 






publicado por A Velha Menina às 16:32

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1 comentário:
De AMIGOS DO CONCELHO DE AVIZ a 5 de Fevereiro de 2008 às 00:37
Pode não ter nada a ver com o assunto aqui tratado, mas porque a cultura é um “bem” importantíssimo a defender, convido-vos a participarem nos VI Jogos Florais de Avis, que já são uma referência no panorama cultural português. Sendo uma iniciativa da Amigos do Concelho de Aviz-Associação Cultural, o regulamento está disponível em www.aca.com.sapo.pt
Concorram e boa sorte.
Saudações culturais.
P’la ACA,
Fernando Máximo!


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